Nunca me ensinaste grande coisa. Como sempre digo, a única coisa que me
ensinaste na vida foi a comer bem e a nunca ser como tu (isto aprendi eu, sem
tu nunca o dizeres).
Compreendo que a
vida para ti possa não ter sido fácil, mas por essa mesma razão, achava que
isso te despertava um desejo de ser diferente, mas enganei-me.
Compreendo também
que depois de teres deixado essa parte da tua vida, as circunstâncias não
tenham sido as melhores e que tenhas sofrido o pior trauma que um pai pode
sofrer e que nunca tenhas ultrapassado as perdas que isso te causou. Sei que
houve algo bom no meio de tanto mau, mas por experiência própria, que também vivi
esse trauma, sei que o bem nunca compensou o mau e nunca fez muito sentido na
tua cabeça, e percebo.
Também sofri, muito, enterrada no meu silêncio, com as lágrimas mais
pesadas. Sofri este trauma e sofri por todas as batalhas que tive que lutar ao
crescer, porque a incompreensão era imensa, as perguntas eram intermináveis e o
vazio era constante. Aquela dor persistente no peito, que não vemos razão para
a ter, que nos segue para todo o lado, enlouqueceu-me, de verdade!
Sei que a vida não é fácil. Não é fácil para mim também, acredita. mas o
meu coração parte mais um bocadinho sempre que faz de escudo ás tuas
conversas. Tens palavras mais afiadas do que facas e mesmo assim preferia
uma faca cravada no peito.
Nunca
senti tanta raiva como já senti por ti, e sinto, e tu, de todas as pessoas, por
ordem da natureza não devias ser alguém de quem eu sentisse raiva e ódio. Nunca
me senti tão rebaixada como me sinto por ti. Mas levantei-me sempre e conquistei
o equilíbrio para não voltar a desabar.
És
aquela pessoa que nunca ouvi dizer bem de mim, e és aquele que sempre
contrariou quem o fizesse. Não tens orgulho em mim, mas eu tenho. Tenho orgulho
em tudo aquilo que sou. Tenho orgulho por ter aprendido tanto sozinha. Tenho
orgulho pelas estaladas que levas sempre que progrido na vida e que tu achavas
que eu não era capaz.
Um dia ainda vou mudar o mundo. Gosto de pensar que já comecei nessa jornada,
pelos pequenos gestos.
Nunca
me falhaste nos aspetos vitais. Sempre tive tudo aquilo que precisei, comida,
teto, dinheiro e educação. Mas nunca me respeitaste como eu respeito as
pessoas. Um dia hei-de cuidar de ti quando precisares, mas digo já, não
mereces.
A
todas as pessoas que veem o teu lado mascarado, espero que o desvendem e vejam
o teu verdadeiro eu. E a pergunta que carreguei pela maior parte da minha vida:
O
que é que eu quero ser quando for grande? Quero ser nunca como tu e quero
agradecer-te por me dares este objetivo de vida.